Fábio Sousa

Truta

Fábio Sousa está à frente de uma produção familiar de truta desde 1985. Qualidade, tempo e ciclos naturais acima do crescimento.

Piscicultura Chão da Ribeira
9270-134 Seixal, Madeira 

Como chegar

Tlm // 965 825 607 (Fábio Sousa)


Fotografias de Arlindo Camacho

A truta na Madeira vive de um equilíbrio subtil entre produção discreta e forte presença cultural. Anualmente, a ilha produz entre 20 e 25 toneladas, sendo que toda a produção comercial de água doce se concentra no Chão da Ribeira, a única exploração do género em funcionamento na região. Aqui, a escala é assumidamente limitada e orientada exclusivamente para o mercado regional — não há exportação — o que reforça o carácter local, quase invisível, deste produto fora da ilha.

À frente desta exploração está Fábio Sousa, atual co-proprietário, que dá continuidade ao projeto iniciado pelo pai em 1985. A produção é cuidadosamente ajustada ao leque de clientes, sem ambição de crescimento acelerado. Pelo contrário, o tempo é um fator central: as trutas - sobretudo arco-íris, mas também europeias e algumas variedades amarelas  - são criadas integralmente no local, respeitando o seu ritmo natural. Produz-se ligeiramente acima da procura para garantir continuidade, mas sem pressão, numa lógica que privilegia a qualidade e a estabilidade.

Este posicionamento não está isento de desafios. A rentabilidade é reduzida e tem sido pressionada pelo aumento dos custos de produção, nomeadamente das rações, agravado pelo contexto global recente, além de ainda refletir os impactos da pandemia. Ainda assim, há um compromisso claro em manter o projeto vivo, afinando processos sem comprometer aquilo que é visto como a sua maior mais-valia: a qualidade do produto e a sua ligação ao território.

Este trabalho insere-se num contexto mais amplo onde a truta ocupa um lugar relevante na identidade gastronómica do concelho de Santana. Ao longo dos anos, diferentes freguesias foram incorporando este peixe nas suas cozinhas, criando uma presença consistente, ainda que pouco uniformizada. Parte dessa tradição é também influenciada pelo Ribeiro Frio, historicamente associado ao repovoamento das ribeiras e à divulgação turística da truta, embora sem fins comerciais.

Eventos como o Festival da Truta – Rota da Sidra, em São Roque do Faial, reforçam esta ligação entre produto, território e cultura, aumentando pontualmente a procura e celebrando a truta como elemento identitário. Em paralelo, a pesca em águas interiores continua a ser uma prática relevante na ilha, maioritariamente entre residentes, mantendo viva a relação direta entre as pessoas e este ecossistema.

A truta na Madeira constrói-se nesta dualidade: entre um sistema produtivo quase invisível, enraizado e artesanal no Chão da Ribeira, e uma imagem mais institucional e divulgada associada ao Ribeiro Frio. É precisamente nesse espaço intermédio que reside o seu maior interesse — um produto autêntico, profundamente territorial, mas ainda pouco explorado fora do seu contexto natural.