Fátima Ricardo

Peixe e Marisco de Rio

“É uma vida de muito trabalho e dura. As pessoas querem antes um trabalho com férias, fim de semana, essas coisas. Nós não temos nada.”

Cais Palafitico da Carrasqueira
7580-613 Comporta


Texto de Cláudia Lima Carvalho
Fotografias de Arlindo Camacho

Romper da Aurora. O nome não foi escolhido por si, mas não podia ser mais certeiro. “O primeiro barco que comprámos já tinha este nome”, conta Fátima Ricardo, pescadora “há cerca de 40 anos”. “No fundo, desde sempre. Ainda cheguei a trabalhar no arroz, mas na altura ganhava-se mais no mar.”

Hoje já não é bem assim, lamenta. Nunca esteve noutro sítio que não o Cais Palafítico da Carrasqueira, na Comporta. Já foram muitos ali, “agora, se calhar, nem 20”. “Noto uma diferença enorme mesmo. Não tem nada a ver, não há novas gerações”, aponta, justificando que “a pesca também já não compensa”. “É uma vida de muito trabalho e dura. As pessoas querem antes um trabalho com férias, fim de semana, essas coisas. Nós não temos nada.”

Também há menos peixe, alerta. “Muito menos. Nós éramos muitos mais e havia peixe para toda a gente e hoje o peixe é pouco. Mas há muita procura”, garante Fátima. E é por isso que, com o marido, se continua a fazer ao mar todas as madrugadas. “Vamos sempre os dois. Temos as tarefas bem definidas. Chega-se ao barco e há uma maneira de trabalhar em que cada um sabe aquilo que tem de fazer”, diz. Ele ao motor, ela à proa. “Eu largo a rede e ele colhe. Eu tiro o peixe. Nunca nos atropelamos”, garante e ri-se ao lembrar que discussões só acontecem em dias de pouca pescaria. “Quando a pesca corre bem, vimos todos contentes.”

A vida de Fátima, como a de todos ali, mede-se pelas marés. “No nosso porto, nem sempre temos água”, explica. Seja como for, “nunca se pesca muito tarde”, nunca depois das seis da manhã, assegura.

Os chocos são o principal sustento, “de Fevereiro ao fim de Julho”, mas a rotina adapta-se às épocas. “Depois vêm outras pescas: robalo, dourada, minhoca, amêijoa. Vamos completando com outras coisas”, explica a pescadora, que se orgulha em ter sido a primeira Guardiã do Mar da Ocean Alive. “A Raquel [Gaspar] conheceu-me. Ficou encantada e começou a vir à minha casa e a convidar-me para o projecto”, recorda. Não foi difícil de convencer. “Se ela, que não vivia desta vida, adorava tanto isto e queria tirar o lixo e ajudar com certas coisas, quanto mais a gente, que vivia disto, era o nosso ganha-pão.”

A missão começou com gestos simples: recolher o lixo que vinha nas redes e olhar para a sua fonte de sustento de outra forma. “Antigamente, a gente pensava que o rio era tão grande que absorvia tudo. Tudo quanto levávamos, deitávamos fora. Garrafas de água, sacos, copos de iogurte, tudo.” Hoje, o que vem nas redes regressa em sacos para o lixo. “Tudo o que levamos, trazemos”, orgulha-se, segura de que “toda a gente já olha de forma diferente para o estuário”. “Abriu-nos os horizontes.”

Fátima fornece a sua pesca a intermediários, como Ismael Nunes, na Carrasqueira.