Sílvia Padinha cresceu numa ilha sem luz, sem água e sem estrada. Ficou para a defender.
Oysters4U
Ilha da Culatra
Faro
+351 917 761 261
Fotografias de Arlindo Camacho
Sílvia Padinha cresceu numa ilha sem estrada, sem luz eléctrica e sem água potável. Uma ilha separada do continente pela ria, onde as famílias viviam da pesca artesanal e dos viveiros de amêijoa, e onde o Estado demorava a chegar. Foi nesse contexto que aprendeu o que significa defender um território — não com palavras, mas com acções concretas e uma visão de longo prazo.
Presidente da Associação de Moradores da Ilha da Culatra (AMIC), na Ria Formosa, Sílvia Padinha é hoje uma das figuras mais determinantes na defesa das comunidades piscatórias portuguesas. O seu trabalho parte sempre do mesmo princípio: que uma comunidade só sobrevive se souber proteger simultaneamente as pessoas que a habitam e o ecossistema que a alimenta.
Quando produtores frabceses identificaram na ria condições excepcionais para a produção intensiva de ostras e avançaram para a compra das concessões familiares, Sílvia respondeu com uma pergunta: se as condições são tão boas, porque não somos nós a produzir? Mobilizou os moradores, envolveu os filhos dos pescadores, estruturou um modelo de produção que hoje sustenta 25 famílias e mantém o equilíbrio ambiental da ria. Ela própria é produtora de ostras da Culatra, sob a marca Oysters4U.
É esta capacidade de transformar ameaças em oportunidades, sem perder de vista a identidade do lugar, que distingue o seu trabalho. A Culatra tem hoje certificação internacional de sustentabilidade, um plano para ser energeticamente autónoma até 2030, e uma legislação específica que protege as casas da especulação imobiliária — conquistas que não caíram do céu, foram construídas a partir da ilha, com a ilha.
Para Sílvia Padinha, sustentabilidade é sempre uma equação com duas variáveis: o meio ambiente e as pessoas que nele vivem. Separar uma coisa da outra é, para ela, o caminho mais curto para perder as duas.