The Landscape Farm

Azeite Cereais e Leguminosas Ervas Fruta Hortícolas

Jorge Cancela não faz exploração agrícola, faz exploração de paisagem. No Bairro Ribatejano, conjuga horta, mato, olival, pomar e campo. 

Rua da Quintinha – Comeiras de Baixo
200-694 São Vicente do Paúl – Santarém
+351 911 510 010
Como chegar

ecostatus94@gmail.com

Instagram / @thelandscapefarm

Apresentado por
Rodrigo Castelo, Ó Balcão


Texto de Inês Matos Andrade
Fotografias de Joana Freitas

Com a Ghia, uma jovem pastor-alemão, a seu lado, e de panamá pousado na cabeça, Jorge Cancela recebe-nos na sua The Landscape Farm. Começa por explicar que estamos no Bairro Ribatejano, uma das três regiões naturais do território borda-d’água, cujas características influenciam o tipo de exploração agrícola: a Lezíria emoldura o Tejo, composta por planícies com solos de aluvião, muito férteis; a Charneca, na margem esquerda do Tejo, tem solos mais arenosos e funde-se com o montado alentejano; e o Bairro, situado no Ribatejo setentrional, na margem direita do rio, ganhou o seu nome graças aos solos barrentos. Este coração do calcário mediterrâneo ecoa um passado de há 10 milhões de anos, quando este terreno era um fundo de um lago. Apesar destas vincadas divisões, Jorge explica que a exploração de paisagem a que a The Landscape Farm se dedica – e que lhe deu o nome – permite, em apenas 20 hectares, ter 128 unidades de paisagem distintas. 

Jorge Cancela, 60 anos, é arquiteto paisagista. A sua vida continua a seguir na capital, mas há quase 20 anos que tem nesta casa dos avós, em Comeiras de Baixo, um refúgio. “Em Lisboa, olho para o relógio para medir o tempo; aqui, olho para o céu”. O projeto divide-se em seis arestas principais: a casa, a horta, o olival, o pomar, o campo e os matos. Dedica-se a avaliar a paisagem e perceber a vocação de cada terrunho. O olival e figueiral estão nas encostas austrais; nos vales ficam as hortícolas; as encostas a norte, mais bravias, são um habitat natural para as ovelhas. 

“Se eu estivesse noutra latitude, faria outra coisa. Em Alcácer produziria arroz, na Serra da Estrela, queijo. Aqui, apostamos na diversidade, na rotação de culturas. É um sistema complexo, mas harmonioso, como um puzzle.

À medida que caminhamos pela quinta, percebemos a intenção entre conjugar horta razia com plantações arbóreas, enriquecendo a paisagem. Aqui não há recurso a qualquer tipo de químicos, e o único plástico existente está circunscrito ao essencial: túneis e pequenas estufas. Encaram o solo como um capturador de carbono, alimentando-o sem o remexer, técnica muito disseminada, mas que empobrece o terreno. “O grande objetivo é encarar a paisagem como um património a ser preservado. Se protegemos o Mosteiro dos Jerónimos, porque não defender a morfologia do bairro ribatejano?”. 

Cada plantação, pessoa, animal e até máquina, tem um papel neste sistema delicado. Rafi, Broa, Lua, Baui, Orelhas, Tonito, Caramelo, Madi e Flor, são alguns dos nomes dos animais que povoam esta quinta, sejam cavalos resgatados do matadouro, usados para passeios e para estrumar os campos, ou as ovelhas que limpam as ervas daninhas. Até a maquinaria foi batizada: Natércia e Magda. “Tentamos criar valor ecológico, alimentar, estético, económico e cultural na pequena agricultura”, explica Jorge. 

Entre leguminosas, hortícolas, azeite, mel e fruta, a The Landscape Farm dispõem de mais de 50 tipos de produtos. Dos olivais tradicionais sai um dos poucos azeites virgem-extra do Ribatejo com certificação biológica. Há melão, abóbora, feijão-verde, couve, marmelos, figos, amoras e orégãos selvagens. Daqui sai também um grão-de-bico premiado e o tradicional chícharo, detentor de uma medalha de ouro. Aposta-se ainda no mel de cortiço, uma arte ancestral, e uma alternativa mais natural às estandardizadas caixas e redes de alça comuns na apicultura. Recuperando estruturas de cortiço já existentes, ou utilizando troncos ocos de sobreiros, é possível criar colmeias naturais, onde as abelhas encontram habitats mais similares àqueles que elas próprias construiriam na natureza, estruturando os seus favos sem intervenção de matrizes pré-definidas. Uma prática com valor etnográfico, que melhora a resistência a condições climatéricas violentas, temperaturas extremas e garante melhor integração na paisagem. 

A atividade da The Landscape Farm não se esgota na produção. Os produtos da quinta são vendidos nos cabazes semanais, mas, para evitar desperdício e atrair clientes, muitos são transformados e vendidos online ou na loja física – recuperada do antigo sapateiro, Mestre Domingos – ou usados para refeições caseiras que preparam a pedido para grupos até oito pessoas. Pestos, compotas, chutneys, empadas, figos secos, tomate seco, entre muitos outros, tornaram-se uma parte vital do negócio. 

O envolvimento na comunidade, outro dos fatores essenciais para a sobrevivência de um negócio que além de ser rentável quer ser filantropo, passa por várias sinergias e parcerias – caso dos cabazes SEMEAR, um projeto que se dedica à inserção de jovens adultos com deficiências intelectuais –; pela recuperação de casas antigas para turismo rural; uma futura escola de caseiros – que formará pessoas para as ciências ancestrais da agricultura –; e ainda a reabilitação do Ti Chico, um antigo moinho abandonado na Chã de Cima.

Além dos cabazes semanais, loja in loco e loja online, a The Lanscape Farm vende os seus produtos frescos em mercados esporádicos e os produtos transformados na Gleba.