Restaurar o solo, fechar ciclos, e transformar uma paixão pessoal num território partilhado com a comunidade.
Quinta Vale da Lama
EM534, CP 325-N
8600-258 Odiáxere Lagos
+351 968 414 741 (Hugo Barbosa)
info@valedalama.net
Instagram/ @quintavaledalama
Facebook/ @valedalama
Onde Comprar
Quinta Vale da Lama
Vivo Mercado, Lagos - quarta-feira, a partir das 16h
Mercado do Levante, Lagos - sábados, a partir das 7h30
Fotografias de Arlindo Camacho
Entre Odiáxere e a Meia Praia, onde a ria de Alvor se aproxima do Atlântico, a Quinta Vale da Lama ocupa 43 hectares de terra que foi explorada intensivamente durante o século XX e que, depois, ficou mais de uma década em pousio. É actualmente um dos projetos de agricultura regenerativa mais consistentes do sul de Portugal.
A história começa em 1987, quando Walt, empresário americano, e Nita, assistente social portuguesa, se conheceram e decidiram construir em Portugal "um mundo melhor" através de um projeto de educação. Em 1994 fundaram a Novas Descobertas Association e começaram por organizar campos de férias na Serra de Monchique. Um incêndio, em 2003, destruiu essa primeira localização — mas, como gostam de dizer por lá, o problema é a solução: o fogo abriu caminho para procurarem novo terreno, e em 2005 chegaram a Vale da Lama.
Desde então, o casal tem desenvolvido ali um campus vivo, guiado pelas três éticas da permacultura: cuidar da terra, cuidar das pessoas, partilhar o excedente. Nita conta que o projeto nasceu, acima de tudo, de uma paixão pessoal: "venho de uma aldeia, tenho contacto com galinhas, com as histórias das minhas avós — já vivíamos um pouco disto tudo." Foi esse fio que a levou, já com terreno em mãos, a tirar um curso de agricultura e a começar, pouco a pouco, a plantar — primeiro árvores, para cobrir e proteger o solo. "Cobrir o solo, restaurar a terra: esse é o nosso foco maior, meu e do meu marido", diz.
Hoje a quinta funciona como um ecossistema fechado. A horta biointensiva abastece dois mercados locais e, mais recentemente, o próprio restaurante da quinta — um ciclo curto, quase circular, entre a horta e a mesa: os desperdícios orgânicos regressam à terra através de compostagem e vermicompostagem, fechando o ciclo que alimenta a produção seguinte.
Por trás desse ciclo está uma equipa pequena mas dedicada: Hugo trata das vendas nos mercados e da relação com os clientes dos produtos da quinta; Ana e Enrico são os horticultores responsáveis pelo cultivo diário. É também uma equipa que recebe, quase todos os dias, escolas — grupos de crianças que vêm conhecer de perto o trabalho da terra, um investimento em educação ambiental que a quinta assume como parte central da sua missão, ao lado dos cursos de Design em Permacultura, das formações de professores e de um programa de estágios de seis meses que já passou por dezenas de futuros agricultores e gestores de projetos regenerativos.
A quinta é também sede da Mud Valley Foundation, organização sem fins lucrativos dedicada a inverter a desertificação no ecossistema local e na bioregião mais vasta. A Mud Valley junta outros proprietários e produtores locais numa rede mais alargada de regeneração — através de um laboratório de solos de campo, de programas de formação e voluntariado, e de um Centro de Aprendizagem Bioregional em construção para o sudoeste de Portugal, ligado à rede global de Ecosystem Restoration Communities.
Além da produção alimentar, a Vale da Lama sustenta-se através do agroturismo: o eco-resort Casa Vale da Lama oferece nove quartos — sem televisão nem wi-fi — pensados para que os hóspedes desacelerem entre os jardins, a piscina e o café-restaurante da quinta, onde a cozinha de inspiração mediterrânica aproveita as ervas aromáticas cultivadas ali mesmo, segundo os mesmos princípios de permacultura.
E o trabalho não pára por aí. Nita fala já do próximo passo: no outono, uma nova ronda de plantações vai estender a floresta alimentar a outras zonas da quinta, alargando ainda mais o território regenerado.
Quase quatro décadas depois de Walt e Nita se terem conhecido com a ideia de criar um mundo melhor, a Vale da Lama continua a demonstrar, hectare a hectare, o que significa cuidar da terra a sério: restaurar o solo, fechar ciclos, e transformar uma paixão pessoal num território partilhado por chefs, agricultores, crianças e visitantes.